Introdução
A história da organologia ocidental é pontuada por invenções que, embora tecnicamente competentes, sucumbiram às pressões da padronização industrial ou às mudanças estéticas imprevisíveis da prática musical. No entanto, poucos instrumentos ocupam um espaço tão singular na historiografia musical quanto o saxofone C-Melody (ou Tenor em Dó). Situado acusticamente e fisicamente entre o saxofone alto em Mi bemol e o saxofone tenor em Si bemol, o C-Melody representa a cristalização de uma visão orquestral original de Adolphe Sax que, por uma confluência de fatores socioeconômicos e culturais, floresceu brevemente de maneira espetacular antes de cair em um século de obscuridade relativa.[1, 2]
Este artigo destina-se a examinar o saxofone C-Melody, transcendendo a visão superficial de que se trata apenas de uma “curiosidade” ou um “instrumento de amador”. Através da análise de dados históricos, propriedades acústicas, trajetórias de manufatura e discografia comparada, demonstra-se que o C-Melody possui uma identidade timbrística única e vantagens harmônicas que justificam seu renascimento contemporâneo. A pesquisa abrange desde as patentes originais de 1846 até as modernas linhas de produção asiáticas, passando pelos virtuosos do jazz da década de 1920 e pelos improvisadores vanguardistas do século XXI.[2, 3]
A Visão Bifurcada de Adolphe Sax
Para compreender a gênese do C-Melody, é imperativo revisitar o contexto da invenção do saxofone na década de 1840. Adolphe Sax, em sua genialidade acústica, não concebeu apenas um instrumento, mas duas famílias distintas destinadas a propósitos divergentes. A primeira família, afinada em Si bemol (Bb) e Mi bemol (Eb), foi projetada especificamente para bandas militares. A lógica era pragmática: esses instrumentos precisavam se integrar às tonalidades predominantes dos metais de sopro militares da época. Esta família, composta pelos atuais soprano, alto, tenor e barítono, obteve sucesso imediato devido à adoção pelas bandas regimentais francesas, garantindo sua sobrevivência industrial.[1, 4]
No entanto, Sax nutria uma ambição mais elevada: a integração do saxofone na orquestra sinfônica. Para tal, ele concebeu uma segunda família, afinada em Dó (C) e Fá (F). O saxofone C-Melody, classificado como o tenor desta família orquestral, foi projetado para ler partituras em altura real (concert pitch), permitindo que o instrumentista tocasse ao lado de violinos, oboés e pianos sem a complexidade da transposição.[1, 2] A teoria acústica de Sax postulava que a afinação em Dó e Fá produziria timbres que se misturariam mais homogeneamente com as cordas orquestrais, diferentemente do caráter mais “cortante” e projetado dos instrumentos militares em Bb e Eb. O fracasso inicial desta família em ganhar tração nas orquestras do século XIX — devido em parte ao conservadorismo dos compositores e em parte às intrigas políticas contra Sax — relegou o C-Melody a um limbo temporário, do qual só emergiria com força total na América do Norte no início do século XX.[1, 4]
Características Organológicas e Acústicas
O saxofone C-Melody não é simplesmente um saxofone alto “esticado” ou um tenor “encolhido”; ele possui uma geometria de tubo e características de resposta que lhe conferem uma assinatura sonora distinta.
Dimensões Físicas e Design do Tudel
Visualmente, o instrumento apresenta desafios de identificação para o observador não treinado. O corpo é ligeiramente maior que o de um alto, mas visivelmente mais compacto que o de um tenor. A característica mais distintiva, no entanto, reside frequentemente no design do tudel (o pescoço do instrumento). Enquanto a maioria dos saxofones tenores possui um tudel com uma curva acentuada (formato de “pescoço de ganso”) para acomodar a postura do músico, muitos C-Melodies fabricados pela C.G. Conn na década de 1920 apresentavam um tudel reto (straight neck), assemelhando-se visualmente a um saxofone alto com proporções alteradas.[3, 5] Outros fabricantes, como a Buescher e a Martin, optaram por um tudel com uma curva suave, mais próxima à do tenor, o que afeta sutilmente a resistência do ar e a projeção do som.[3]
Uma inovação técnica notável encontrada em alguns modelos “New Wonder” da Conn desse período é o micro-afinador (microtuner) integrado ao tudel. Este mecanismo permitia que o músico ajustasse a afinação do instrumento girando um anel roscado no pescoço, alterando o comprimento total do tubo sem a necessidade de mover a boquilha na cortiça. Embora engenhoso, esse mecanismo é frequentemente citado por técnicos modernos como uma fonte potencial de vazamentos de ar se não for mantido adequadamente, mas demonstra o nível de sofisticação mecânica investido nesses instrumentos.[2, 5]
A Física do Timbre e o Estigma do Som “Abafado”
Historicamente, o C-Melody sofreu com a reputação de possuir um som “abafado” (stuffy) ou excessivamente anasalado, carecendo do brilho (squawk) do alto ou do corpo (growl) do tenor.[2, 6] A análise moderna sugere que essa característica não é uma falha inerente ao design cônico do tubo em Dó, mas sim o resultado de uma incompatibilidade tecnológica histórica.
Durante o auge de sua popularidade na década de 1920, o C-Melody era comercializado primariamente para uso doméstico. Consequentemente, as boquilhas originais fornecidas com esses instrumentos possuíam câmaras internas muito grandes e aberturas de ponta extremamente fechadas. Esse design favorecia a facilidade de emissão para iniciantes e produzia um volume baixo e polido, ideal para não incomodar os vizinhos em um ambiente urbano, mas fatal para a projeção necessária em contextos de banda profissional.[7, 8]
Além disso, a prática comum de adaptar boquilhas de outros saxofones exacerba o problema. O uso de uma boquilha de sax tenor (projetada para um volume de ar e comprimento de onda maiores) em um C-Melody frequentemente resulta em instabilidade na afinação e uma perda de foco tonal nos agudos. Inversamente, uma boquilha de alto (projetada para um tubo menor) pode restringir o fluxo de ar e “estrangular” o registro grave do C-Melody.[9, 10] O renascimento do timbre do instrumento no século XXI está intrinsecamente ligado ao desenvolvimento de boquilhas com geometria interna específica para o calibre (bore) do C-Melody, restaurando sua ressonância natural e projeção.[8, 11]
Comparativo Técnico e Tabela de Transposição
A compreensão da utilidade do C-Melody exige uma comparação direta com seus parentes mais próximos. A tabela a seguir delineia as diferenças fundamentais que definiram seu uso histórico e suas limitações modernas:
| Característica Técnica | Saxofone Alto | Saxofone C-Melody | Saxofone Tenor |
|---|---|---|---|
| Tonalidade Real | Mi Bemol (Eb) | Dó (C) | Si Bemol (Bb) |
| Classificação Hornbostel–Sachs | 422.212-71 | 422.212-71 | 422.212-71 |
| Relação com o Piano | Transposição de 6ª Maior | Não transpõe (soa 8ª abaixo) | Transposição de 9ª Maior |
| Leitura de Partitura | Exige partitura transposta | Lê partitura de piano/voz/flauta | Exige partitura transposta |
| Timbre Característico | Brilhante, incisivo, solista | Doce, vocal, “mellow”, flautado | Rico, gutural, potente |
| Faixa de Extensão (Escrita) | Bb3 a F6 (ou F#6) | Bb3 a F6 (geralmente sem F#) | Bb3 a F6 (ou F#6) |
| Design do Tudel | Reto (ângulo de 90º) | Curvo suave ou Reto alongado | Curva acentuada (“Pescoço de Ganso”) |
A capacidade de ler partituras de piano diretamente foi o grande catalisador de vendas do C-Melody. Um pianista amador podia transferir sua leitura diretamente para o saxofone, ou um saxofonista podia olhar por cima do ombro do pianista e tocar a melodia da mão direita, facilitando imensamente a música social em uma era pré-digital.[2, 12]
Ascensão e Queda: O Fenômeno de Mercado (1914-1930)
A trajetória comercial do C-Melody é um estudo de caso sobre a interseção entre marketing, economia e cultura popular. Entre 1914 e 1929, os Estados Unidos vivenciaram uma verdadeira “febre do saxofone” (saxophone craze), e o C-Melody foi o protagonista indiscutível desse fenômeno.[12]
O Instrumento da Sala de Estar
Antes da onipresença do rádio e do fonógrafo elétrico, a produção musical doméstica era a principal forma de entretenimento. Fabricantes americanos como C.G. Conn, Buescher, Martin e King identificaram um mercado inexplorado: o amador entusiasta. As campanhas publicitárias da época não vendiam o saxofone como um instrumento de orquestra difícil, mas como uma ferramenta de lazer acessível. Anúncios em revistas populares prometiam que o C-Melody era “fácil de aprender” e permitia tocar “os sucessos do dia” junto com o piano da família sem a necessidade de conhecimentos teóricos de transposição.[2, 3, 13]
Essa estratégia foi avassaladora. Milhões de saxofones foram vendidos, e clubes de saxofone amadores surgiram por todo o país. A saturação foi tal que cidades como Kansas City chegaram a instituir leis proibindo tocar saxofone entre as 22h30 e 06h00 devido ao barulho gerado pela prática incessante dos amadores.[12] O C-Melody tornou-se onipresente em igrejas, escolas e lares, superando temporariamente as vendas dos modelos profissionais em Bb e Eb.[3, 14]
Fabricantes e Modelos de Destaque
Durante este período dourado, a qualidade de fabricação dos C-Melodies era comparável à dos melhores instrumentos profissionais da época. As “Big Four” americanas competiam em inovação:
- C.G. Conn: Produziu o maior volume de C-Melodies, destacando-se pelos modelos “New Wonder” (Séries I e II). A Conn oferecia a opção de tudel reto, que muitos acreditavam oferecer uma resposta mais direta, além do acabamento em prata com interior da campana banhado a ouro (gold wash), que se tornou um padrão estético de luxo acessível.[3, 5]
- Buescher Band Instrument Company: O modelo “True Tone” da Buescher é amplamente reverenciado por sua intonação superior e timbre doce. A Buescher utilizava o sistema patenteado de sapatilhas “Snap-On” e molas de ouro “Norton”, tecnologias que visavam facilitar a manutenção e melhorar a resposta mecânica. Muitos consideram o Buescher C-Melody o mais “afinável” dos vintages.[3, 15]
- Martin Handcraft: Os saxofones Martin eram construídos com chaminés (tone holes) soldadas ao corpo, em contraste com as repuxadas da Conn e Buescher. Isso resultava em um instrumento mais pesado, com uma sonoridade escura e complexa, muito apreciada hoje por músicos de jazz que buscam uma textura sonora densa.[3]
- King (H.N. White): Conhecida por seus instrumentos de metal, a King produziu C-Melodies com mecânica robusta e gravuras artísticas elaboradas. Embora menos comuns que os Conns, são altamente colecionáveis.[13, 16]
- Selmer Paris: Embora a produção americana dominasse, a lendária Selmer produziu o “Model 22” e o “New York” em Dó. Registros históricos da Selmer indicam que tenores em Dó foram fabricados muito cedo, com números de série tão baixos quanto 788, evidenciando que a empresa francesa também via potencial nesse mercado, embora em escala menor.[17]
O Colapso Repentino
O reinado do C-Melody terminou de forma abrupta, vítima de uma “tempestade perfeita” de eventos econômicos e mudanças estilísticas:
- A Grande Depressão (1929): O crash de Wall Street dizimou a renda discricionária da classe média. O saxofone C-Melody, posicionado como um item de lazer e não de trabalho essencial, viu suas vendas evaporarem quase instantaneamente. A produção em larga escala cessou em 1930 por razões puramente financeiras, não por falhas inerentes ao design.[2, 4]
- A Era das Big Bands: Musicalmente, o jazz evoluiu do estilo contrapontístico de Nova Orleans e Chicago para o som massivo das Big Bands de Swing. Nessas orquestras, o saxofone precisava competir em volume com seções inteiras de trompetes e trombones. O saxofone tenor em Si bemol, com seu tubo mais largo e projeção acústica superior, provou ser mais eficaz para “cortar” a massa sonora. O C-Melody, com seu som mais íntimo e educado, não conseguia fornecer a potência necessária para os naipes de Fletcher Henderson ou Duke Ellington.[2, 18]
- Mudança na Cultura Pop: A partir da década de 1950 e 60, a guitarra elétrica substituiu o saxofone e o piano como o instrumento central da música popular e doméstica, selando o destino do C-Melody como uma relíquia do passado.[18]
Virtuosos e a Redescoberta: Do Ragtime ao Avant-Garde
Apesar de sua associação com o amadorismo, o C-Melody foi o veículo de expressão para alguns dos músicos mais influentes da história do jazz, e continua a ser explorado por artistas contemporâneos que buscam novas cores.
Os Pioneiros: Rudy Wiedoeft e Frankie Trumbauer
A figura de Rudy Wiedoeft é central para a popularização inicial do saxofone. Virtuoso técnico, Wiedoeft elevou o saxofone a um instrumento solista de concerto. Suas composições, como Saxophobia e Valse Erica, exigiam uma técnica de língua (staccato e slap-tonguing) e agilidade de dedos que desafiavam a mecânica primitiva da época. Embora tocasse também o alto, Wiedoeft utilizou extensivamente o C-Melody, ajudando a cimentar a imagem do instrumento na cultura popular.[2, 12, 19]
No entanto, foi Frankie Trumbauer (conhecido carinhosamente como “Tram”) quem elevou o C-Melody à categoria de arte maior no jazz. Parceiro musical do lendário cornetista Bix Beiderbecke, Trumbauer possuía um som seco, vibrante e intelectualizado, desprovido do vibrato excessivo e “xaroposo” comum aos saxofonistas de sua era. Sua gravação seminal de 1927, “Singin’ the Blues”, contém um solo de C-Melody que é considerado um dos momentos fundadores da improvisação jazzística moderna.[20, 21, 22]
A influência de Trumbauer transcendeu seu instrumento: Lester Young, o pai do saxofone tenor moderno, citava repetidamente Trumbauer como sua principal inspiração. Young passava horas tentando emular no seu tenor em Bb a leveza e a agilidade que Trumbauer extraía do C-Melody. Assim, paradoxalmente, o som do C-Melody moldou o som do saxofone tenor no jazz moderno, mesmo quando o instrumento físico desapareceu de cena.[2, 20]
Outras lendas do jazz, como Benny Carter e Coleman Hawkins, iniciaram suas trajetórias musicais no C-Melody antes de migrarem para o alto e o tenor, respectivamente, o que demonstra a onipresença do instrumento como ferramenta pedagógica na primeira metade do século XX.[3]
O Renascimento Contemporâneo: Novas Vozes para um Velho Tubo
No século XXI, o C-Melody experimenta um renascimento impulsionado por músicos que buscam escapar da homogeneidade timbrística do par alto/tenor.
- Scott Robinson: Multi-instrumentista conhecido por sua maestria em instrumentos raros, Robinson lançou em 2000 o álbum Melody from the Sky, gravado exclusivamente com um C-Melody vintage. O repertório varia de clássicos de Bix Beiderbecke (“Davenport Blues”, “Singin’ the Blues”) a peças eruditas como “The Swan” (O Cisne) de Saint-Saëns e originais modernos. A performance de Robinson em “The Swan” é particularmente reveladora, pois o C-Melody atinge uma tessitura e coloração semelhantes às do violoncelo, algo inatingível para o alto (muito brilhante) ou o tenor (muito pesado).[2, 23, 24]
- Joe Lovano: Um dos gigantes do saxofone tenor contemporâneo, Lovano incorporou o C-Melody em sua vasta paleta sonora. No aclamado álbum Quartets: Live at the Village Vanguard (1994) e em trabalhos mais recentes como Homage (ECM), Lovano utiliza o C-Melody para criar texturas que evocam uma sonoridade mais folclórica e aberta. Ele explora a capacidade do instrumento de soar “vocal” no registro médio, contrastando-o com o peso de seu tenor habitual.[2, 25, 26, 27]
- Anthony Braxton: No campo da vanguarda e do free jazz, Anthony Braxton utilizou o C-Melody em diversas gravações e composições (como 9 Compositions e colaborações com Gerry Hemingway). Braxton valoriza o instrumento não por nostalgia, mas por suas propriedades acústicas únicas, explorando multifônicos e timbres extremos que reagem de maneira diferente no tubo cônico em Dó.[2, 28, 29]
- Dan Higgins e o Cinema: Dan Higgins, um dos músicos de estúdio mais respeitados de Los Angeles, é frequentemente associado ao C-Melody. Existe uma nuance importante a ser esclarecida: embora Higgins tenha gravado os famosos solos da trilha sonora de Catch Me If You Can (composta por John Williams) em um saxofone alto — conforme creditado nos encartes oficiais[30, 31] — ele é um ávido defensor e colecionador de C-Melodies. Higgins utiliza o instrumento em vídeos demonstrativos e performances ao vivo para recriar o estilo de virtuosismo de Wiedoeft, demonstrando que o instrumento pode ser tocado com precisão técnica moderna.[19, 21, 32] A confusão comum entre os fãs deve-se à sonoridade “leve” que Higgins extrai do alto na trilha, que remete à estética do C-Melody, e ao fato de ele usar o C-Melody para evocar atmosferas de época em outros trabalhos de estúdio não creditados explicitamente.
O Cenário Brasileiro
No Brasil, a presença do C-Melody é historicamente mais escassa do que nos EUA, mas não inexistente. O instrumento encontra um nicho natural no Choro, gênero onde as tonalidades de Dó, Sol e Ré (fáceis no C-Melody) são comuns devido à predominância de cordas e flautas.
- Ademir Junior: Saxofonista e educador renomado, Ademir Junior tem explorado o C-Melody, aplicando a linguagem virtuosística do choro e da improvisação moderna. Seus materiais didáticos e vídeos demonstram a viabilidade do instrumento para a música brasileira, onde sua tessitura intermédia permite transitar entre o papel de baixaria e melodia com fluidez.[33, 34, 35]
- Mercado e Luthieria: Encontrar um C-Melody no Brasil exige paciência. Plataformas como o Mercado Livre ocasionalmente listam instrumentos, muitas vezes classificados generica mente como “relíquias” ou com identificação incorreta (tenores vendidos como C-Melody). Marcas nacionais antigas como a Weril chegaram a produzir modelos “Melody em Dó” no passado, que hoje são itens de colecionador raríssimos.[36, 37, 38] A manutenção destes instrumentos depende de uma rede de luthiers especializados, como a Oficina de Sopro e Atelier do Sopro, capazes de fabricar peças sob medida e ajustar sapatilhas de tamanhos não padronizados.[39, 40, 41]
O Mercado Moderno: A Ressurreição Industrial
Após quase oitenta anos de silêncio nas linhas de montagem, o século XXI testemunhou o retorno da fabricação de saxofones C-Melody novos. Este fenômeno foi impulsionado pela conectividade da internet, que uniu uma comunidade global de entusiastas, e pela flexibilidade da manufatura asiática.
Aquilasax: O Pioneiro Extinto
A empresa neozelandesa Aquilasax foi a grande responsável por iniciar este renascimento nos anos 2000. Eles encomendaram a fábricas chinesas a produção de C-Melodies com mecânica moderna, inspirada no layout ergonômico do Selmer Mark VI, corrigindo as limitações das chaves de 1920 (especialmente a difícil mecânica do dedo mínimo esquerdo). Embora a Aquilasax tenha encerrado suas atividades em 2015, seu legado foi provar que existia um mercado viável para o instrumento.[2, 3]
Opções Atuais: Thomann e Sakkusu
Atualmente, grandes varejistas europeus preencheram o vácuo deixado pela Aquilasax, oferecendo instrumentos “stencil” (fabricados na Ásia sob marca própria) que garantem controle de qualidade e disponibilidade de peças:
- Thomann (Alemanha): A gigante do varejo musical oferece o modelo Thomann CMS-600, disponível nas versões laqueada (L) e prateada (S). Este instrumento incorpora características modernas essenciais, como a chave de Fá sustenido agudo (High F#) — inexistente nos modelos vintage — e ganchos de polegar ajustáveis. O preço acessível tornou-o a porta de entrada para muitos estudantes e curiosos.[42, 43, 44]
- Sakkusu (Reino Unido): A marca própria da loja Sax.co.uk lançou um C-Melody elogiado por sua construção robusta (“ribbed construction”, onde os postes das chaves são soldados em barras de reforço e não diretamente no corpo) e uso de sapatilhas de alta qualidade. Um detalhe interessante do modelo Sakkusu é a presença de um micro-afinador no tudel, uma homenagem direta aos clássicos da Conn de 1920, mas fabricado com precisão CNC moderna para evitar vazamentos.[2, 45, 46]
Estas opções modernas eliminam muitos dos riscos associados à compra de instrumentos vintage (metal fatigado, afinação instável, odor de mofo), embora puristas argumentem que o som dos novos instrumentos é mais “genérico” e próximo de um tenor moderno do que o timbre aveludado de um Buescher de 1925.[9, 15]
O Fator Crítico: Boquilhas e Equipamento
A maior barreira para o sucesso do C-Melody sempre foi, ironicamente, a falta de acessórios adequados. Tocar um C-Melody com uma boquilha de tenor é possível, mas acusticamente imperfeito. O volume interno da câmara da boquilha precisa corresponder ao volume do cone truncado do saxofone para garantir a intonação correta ao longo de toda a escala.
A Revolução das Boquilhas Dedicadas
O renascimento moderno trouxe consigo fabricantes de boquilhas que se dedicaram a resolver a equação acústica do C-Melody:
- Morgan Mouthpieces: A empresa americana oferece boquilhas de ebonite (borracha dura) projetadas especificamente para o C-Melody. Elas são desenhadas para usar palhetas de sax tenor em Bb, mas com uma câmara interna calibrada para o C-Melody. São amplamente consideradas a melhor opção para quem busca um som profissional, rico e afinado, permitindo uma gama dinâmica que as boquilhas vintage originais não suportavam.[8]
- Caravan Mouthpieces: O Dr. Ronald Caravan desenvolveu boquilhas com câmaras grandes e aberturas conservadoras, focadas em reproduzir o som “dark” e clássico original do instrumento, mas com afinação moderna. São ideais para música de câmara e repertório erudito, eliminando a estridência indesejada.[2, 47, 48]
- Saxquest “The Tram”: Uma boquilha moderna inspirada no som de Frankie Trumbauer. Ela busca oferecer a projeção necessária para o jazz (algo que as boquilhas originais de 1920 não tinham) sem descaracterizar o timbre do instrumento. É descrita como tendo um “baffle” (defletor) sutil que adiciona brilho e resposta rápida.[11, 49]
Palhetas e Compatibilidade
Não existem palhetas fabricadas em larga escala especificamente para C-Melody hoje (embora existam estoques antigos ou marcas de boutique). A prática padrão aceita é o uso de palhetas de saxofone tenor em Bb. No entanto, muitos músicos acham necessário cortar alguns milímetros da base da palheta de tenor para que a curva da ponta (vamp) coincida perfeitamente com a mesa da boquilha de C-Melody, especialmente se estiverem usando boquilhas vintage. O uso de palhetas de sax alto é geralmente desaconselhado, pois são estreitas demais para as janelas das boquilhas de C-Melody, causando vazamentos laterais e som magro.[8]
Conclusão: O Futuro de uma Voz Singular
A análise detalhada da trajetória do saxofone C-Melody revela um instrumento que foi vítima de circunstâncias econômicas e modismos estéticos, mas que nunca perdeu sua validade musical intrínseca. O que foi sua fraqueza na era das Big Bands — o volume moderado e a afinação em Dó — tornou-se sua maior força na era contemporânea.
Hoje, em um cenário musical onde a amplificação eletrônica resolve qualquer questão de volume, o saxofonista não precisa mais “lutar” contra a seção de metais. Ele pode priorizar a cor, a textura e a personalidade. O C-Melody oferece exatamente isso: uma voz que não é nem o grito do alto nem o rugido do tenor, mas um canto humano, lírico e equilibrado.
Para o músico brasileiro, seja no choro, na MPB ou no jazz experimental, o C-Melody representa uma ferramenta de expansão criativa. A capacidade de ler partituras de flauta e piano sem transposição abre um vasto repertório de música brasileira que, de outra forma, exigiria um trabalho exaustivo de reescrita. Com a disponibilidade de instrumentos modernos confiáveis e boquilhas cientificamente projetadas, o “Tenor em Dó” deixa de ser uma relíquia de museu para se tornar um instrumento vivo, pronto para escrever os próximos capítulos de sua história centenária.
A “voz esquecida” de Adolphe Sax foi, finalmente, relembrada.
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Referências
- C Melody Saxophone – Wikipedia (Fontes para: 1, 2, 4, 12, 18, 19, 23, 25, 26, 28, 45, 47)
- C Melody Saxophone Guide: History, Players & More – JazzFuel (Fontes para: 2, 3, 6, 13, 14, 18, 20, 42, 43, 45, 47)
- Poor C Melody. It’s the ignored member of the saxophone family. (Fontes para: 4, 7, 8, 47)
- C. G. Conn – Wikipedia (Fontes para: 5)
- C melody saxes – why aren’t they more popular? (Fontes para: 6, 10, 12, 13)
- How it came to be: Morgan C Melody Tenor Mouthpiece (Fontes para: 7, 8, 11)
- Cons of C Melody Sax? – Reddit (Fontes para: 9, 10, 15, 17)
- Saxquest “Tram” mouthpiece for C-melody saxophone (Fontes para: 11, 49)
- C-melody saxophone: “extinct” or making a comeback? (Fontes para: 12)
- Vintage 1920’s Abbott C Melody Tenor Saxophone (Fontes para: 13, 16)
- H.N. White King Vintage 1920s C Melody Saxophone (Fontes para: 14)
- Of historical note/rare saxophones, the C-Melody (Fontes para: 15)
- History Notes: C-Melody – Henri SELMER Paris (Fontes para: 17)
- When did the saxophone stop being cool? (Fontes para: 18)
- Teste no Sax em Dó (C) Sax Melody – Romualdo Costa Saxofonista (Fontes para: 19)
- Frankie Trumbauer’s “Singin’ the Blues” (1927) (Fontes para: 20)
- Scott Robinson Plays C-Melody Saxophone: Melody from the Sky – Arbors Records (Fontes para: 23, 24)
- Quartets: Live at the Village Vanguard – Joe Lovano (Fontes para: 25)
- Anthony Braxton on C Melody Saxophone (Fontes para: 28)
- Escapades for Alto Saxophone and Orchestra from “Catch Me If You Can”: Movement 1: Closing In (Fontes para: 30, 31)
- Dan Higgins Official Website (Fontes para: 32)
- Ademir Junior – Saxofonista e Educador (Fontes para: 33, 34, 35)
- Saxofone Tenor Melody Em Dó – Weril Brasil – Prateado – Mercado Livre (Fontes para: 36, 37)
- Atelier do Sopro – Restauração e Luthieria (Fontes para: 39, 40, 41)
- Thomann CMS-600 S C- Melody Saxophone – Thomann Music (Fontes para: 42, 44)
- Sakkusu Saxophones – Sax.co.uk (Fontes para: 45, 46)
- Caravan Mouthpieces – C-Tenor (“C-Melody”) Saxophone (Fontes para: 47, 48)
*Esta lista de referências consolida as fontes primárias utilizadas na pesquisa original para cada conjunto de fatos citados no texto.


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