O Timbre Germânico: Um Dossiê Técnico, Histórico e Acústico sobre os Saxofones Julius Keilwerth
Por Otávio DelleVedove – contato@saxpro.com.br
Introdução: A “Quarta Força” e a Resistência da Estética Sonora Europeia Central
No vasto e complexo universo dos instrumentos de sopro, a narrativa predominante do século XX consolidou-se em torno de uma trindade industrial: a tradição francesa, refinada e focada, epitomizada pela Selmer Paris; e a precisão técnica japonesa, representada pela Yamaha e Yanagisawa. Este “Big Three” ditou, por décadas, os padrões de ergonomia, afinação e, crucialmente, de timbre. No entanto, para o saxofonista que busca uma voz que transcenda a polidez focada da escola francesa ou a neutralidade clínica da escola asiática, existe uma quarta via. Uma via que não é apenas uma alternativa, mas um bastião de resistência de uma tradição sonora que remonta às montanhas da Boêmia: a Julius Keilwerth.
Este artigo, elaborado especificamente para a seção LAB do portal SAXPRO, destina-se a preencher uma lacuna significativa na literatura técnica disponível em língua portuguesa. Enquanto o mercado brasileiro foi historicamente inundado por instrumentos de design francês ou suas cópias asiáticas, a presença da Keilwerth — muitas vezes oculta sob nomes de “stencils” como H. Couf, Conn DJH ou Armstrong — permaneceu como um segredo guardado entre solistas de jazz, músicos de estúdio e entusiastas do som “vintage” moderno. A importância de compreender a trajetória e a engenharia da Keilwerth reside no fato de que esta marca representa, talvez, o último elo vivo com a estética do saxofone de “diâmetro largo” (wide bore), uma filosofia de design que prioriza a potência, a riqueza de harmônicos graves e uma dispersão sonora omnidirecional, em contraste com a projeção direcional dos instrumentos modernos padrão [1].
A análise que se segue não é superficial. Mergulharemos nas entranhas da metalurgia utilizada em Nauheim e Markneukirchen, dissecaremos a polêmica técnica dos anéis de chaminé soldados (soldered tone rings), rastrearemos a confusa genealogia dos modelos estudantis que migraram da Alemanha para Taiwan, e investigaremos como a geopolítica da Guerra Fria moldou o design desses instrumentos. Para o luthier, o colecionador e o saxofonista profissional brasileiro, este dossiê oferece as ferramentas críticas para identificar, avaliar e extrair o máximo potencial desses instrumentos teutônicos.
1: A Gênese em Graslitz e a Forja da Identidade Boêmia (1925-1945)
A história da Julius Keilwerth não começa em um vácuo industrial, mas sim no epicentro de uma das regiões mais férteis para a fabricação de instrumentos musicais na Europa: o Musikwinkel (Canto da Música), uma área geográfica que ignora fronteiras políticas e abrange a Saxônia (Alemanha) e a Boêmia (então Checoslováquia).
1.1 O Aprendizado e a Fundação
Julius Keilwerth, nascido em 1894, não iniciou sua carreira como um empresário, mas como um artesão de bancada. Seu aprendizado ocorreu na oficina da Kohlert, em Graslitz (Kraslice). A Kohlert, na época, era uma das fabricantes mais prestigiadas do mundo, conhecida por seus fagotes e saxofones que rivalizavam com os americanos da Conn em termos de inovação. Foi ali que Julius absorveu os rigores da manufatura germânica: a tolerância zero para falhas mecânicas e a busca por um som robusto [2].
Em 1925, Julius, juntamente com seu irmão Max, estabeleceu sua própria oficina. É fundamental notar que, nos primeiros anos, a Keilwerth operava num modelo de “indústria de base”. Eles não vendiam saxofones com seu nome nas vitrines de Berlim ou Paris; eles fabricavam os corpos e chaves para outras marcas, como a Adler e a F.X. Hüller.
Insight Técnico (Segunda Ordem): Este início como fornecedor OEM (Original Equipment Manufacturer) é crucial para o colecionador moderno. Muitos saxofones marcados como “F.X. Hüller World” ou “Adler” dos anos 1920 e 1930 possuem o DNA acústico da Keilwerth — o mesmo desenho de curva, a mesma liga de latão e, frequentemente, a mesma geometria de chaminés. Identificar esses instrumentos “pré-marca” pode representar a aquisição de um instrumento de alta performance histórica por uma fração do valor de mercado.
1.2 A Expansão Pré-Guerra e o Modelo “King”
À medida que a década de 1930 avançava, a Julius Keilwerth começou a afirmar sua própria identidade. A empresa cresceu para se tornar uma das maiores da Europa, empregando cerca de 150 artesãos altamente especializados antes do início da Segunda Guerra Mundial. Os modelos desta época, como o “King” e o “Soloist”, já demonstravam o afastamento do design francês. Enquanto a Selmer refinava o modelo “Balanced Action” com um foco na ergonomia e no som centrado, a Keilwerth dobrava a aposta na tradição do design de tubo largo, similar aos americanos da Conn, mas com uma mecânica mais robusta, típica da engenharia alemã.
1.3 O Cataclismo de 1945: Êxodo e a Cisma da Marca
O fim da Segunda Guerra Mundial trouxe uma ruptura traumática que define o mercado de saxofones vintage da Europa Central até hoje. Com a derrota da Alemanha e a promulgação dos Decretos de Beneš, a população de etnia alemã dos Sudetos (região onde ficava Graslitz) foi expulsa da Checoslováquia. A família Keilwerth foi forçada a abandonar sua fábrica, suas ferramentas, seus estoques de madeira e latão, e fugir para a Alemanha Ocidental [3].
Aqui ocorre a bifurcação histórica mais crítica para a identificação de instrumentos:
- A Fábrica Nacionalizada (Amati): A antiga fábrica da Keilwerth em Graslitz foi confiscada pelo estado checo e integrada à cooperativa Amati. Nos anos imediatos ao pós-guerra (1945-1948 e início dos anos 50), a Amati continuou a produzir saxofones usando o maquinário original da Keilwerth, os projetos da Keilwerth e, incrivelmente, até a estampa “Toneking” e o logotipo “JGK – Best in the World”.
- A Nova Fábrica (Nauheim): Julius Keilwerth, resiliente, restabeleceu sua operação em Nauheim, perto de Frankfurt, na Alemanha Ocidental, em 1946/1947.
Consequência de Mercado: O mercado brasileiro de usados contém diversos saxofones “Toneking” que, tecnicamente, são fabricados pela Amati e não pela Julius Keilwerth reorganizada. Embora os primeiros Amatis (feitos com peças de estoque restantes) sejam excelentes, a qualidade da produção checa eventualmente divergiu da alemã. O comprador deve estar atento à inscrição de origem: “Made in Czechoslovakia” indica um instrumento da linhagem Amati (pós-cisma), enquanto “Made in Germany” (ou West Germany) indica a linhagem autêntica da família Keilwerth.
2: A Renascença em Nauheim e a Era de Ouro dos Stencils (1949-1989)
A reconstrução em Nauheim marca o início da era clássica da Keilwerth. Foi neste período que a marca consolidou sua reputação global e definiu o som que atrairia lendas do jazz americano. A estratégia de sobrevivência e expansão da Keilwerth baseou-se em duas frentes: a produção de modelos próprios de alta qualidade e uma massiva operação de fabricação de stencils para o mercado norte-americano.
2.1 Toneking e New King: A Evolução da Espécie
Durante as décadas de 1950 a 1970, a linha da Keilwerth era dominada por dois modelos principais que compartilhavam o mesmo “coração” acústico, mas diferiam em acabamento e recursos.
O Modelo Toneking
O Toneking era o topo de linha. Este instrumento foi o laboratório de inovações da Keilwerth.
- Recursos: Frequentemente equipado com a chave de F# agudo (uma raridade na época) e, em versões “Exclusive” ou “Special”, uma chave de trinado de D# agudo (G# para D# trill).
- Estética: Gravuras elaboradas, madrepérola real e opções de acabamento em prata ou ouro.
O Modelo New King
O New King era posicionado como o modelo “standard”, mas é um erro categorizá-lo como um instrumento de estudante nos termos modernos [4].
- Acústica: O New King utilizava o mesmo tubo acústico (body tube), o mesmo tudel e a mesma curvatura do Toneking. Isso significa que a performance sonora — a riqueza de timbre, a projeção e a afinação — é idêntica à do modelo profissional.
- Diferenças: A ausência de chaves de trinado auxiliares, a falta da chave de F# agudo em alguns modelos e um acabamento menos ornamentado.
- O “Angel Wing”: Uma característica visual marcante desta era, especialmente nos modelos New King e Toneking da série III e IV, é o protetor de chaves das notas graves (B/Bb) em formato de “Asa de Anjo”. Nos anos 50 e 60, estes eram frequentemente feitos de Lucite (um acrílico transparente ou perolado), dando ao instrumento uma estética Art Deco inconfundível. Posteriormente, por questões de durabilidade, retornaram ao metal [4].
| Característica | Toneking (Profissional) | New King (Standard) |
|---|---|---|
| Tubo Acústico | Wide Bore (Largo) | Wide Bore (Largo) – Idêntico |
| Chave de F# Agudo | Padrão na maioria das séries tardias | Opcional / Ausente nas séries antigas |
| Trinado de D# Agudo | Presente em modelos “Special/Exclusive” | Ausente |
| Protetor de Chaves | Angel Wing (Metal ou Lucite) | Angel Wing (Lucite comum nos anos 50/60) |
| Micro-afinador | Opcional no tudel | Geralmente ausente |
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2.2 A Conexão Americana: H. Couf e a Invasão do Jazz
Para o mercado brasileiro e americano, a relevância da Keilwerth explodiu através da parceria com Herbert Couf. Couf, um ex-clarinetista principal da Sinfônica de Detroit e saxofonista de estúdio, tornou-se vice-presidente da W.T. Armstrong. Desiludido com a direção que os fabricantes americanos estavam tomando e achando os Selmers “muito brilhantes”, Couf buscou na Keilwerth o som escuro e poderoso que desejava [5].
A Linha Superba
A linha H. Couf Superba é, essencialmente, a linha Keilwerth renomeada para o mercado dos EUA.
- Superba I: Corresponde ao Toneking Special. A característica definidora deste modelo são os Rolled Tone Holes (chaminés com as bordas “enroladas”). Diferente dos SX90R modernos (que usam anéis soldados), há debates se os Superba I antigos tinham o metal verdadeiramente enrolado ou já usavam a técnica de anéis. Este modelo é reverenciado por seu som “gordo”, escuro e complexo, sendo a escolha primária de Grover Washington Jr. em grande parte de sua carreira.
- Superba II: Corresponde ao New King. Possui chaminés retas (Straight Tone Holes), mas mantém o mesmo corpo largo. É um dos “best buys” no mercado vintage, oferecendo o som de Grover Washington Jr. por uma fração do preço, apenas sem a estética dos anéis enrolados.
Outros Stencils Notáveis
A Keilwerth foi prolífica na produção de stencils. Identificar estes instrumentos no Brasil pode significar encontrar uma joia oculta.
- Conn DJH Modified: Após a compra da Armstrong pela Conn em 1981, Daniel J. Henkin (DJH) continuou a importar os Keilwerths. Estes são instrumentos profissionais de altíssimo nível, basicamente Tonekings com a marca Conn.
- Armstrong Heritage: A versão de luxo vendida pela Armstrong antes da era Conn.
- Bundy Special: Nos anos 60, a Selmer USA importou Keilwerths (New King) e os marcou como “Bundy Special”. Não confundir com o “Bundy” comum (estudante). O “Special” é um saxofone profissional alemão disfarçado de estudante americano.
3: A Revolução SX90 e a Era Moderna (1990-Presente)
A aquisição da Keilwerth pela britânica Boosey & Hawkes em 1989 catalisou uma modernização total da linha. O objetivo era claro: criar um instrumento que mantivesse a alma sonora alemã, mas que pudesse competir ergonomicamente com a perfeição mecânica da Yamaha e da Selmer Super Action 80.
3.1 O Nascimento da Série SX90
Lançada em 1990, a série SX (Saxophone X) representou um salto quântico. O design do mecanismo foi redesenhado para ser mais ágil, com molas de aço azul e uma geometria de chaves que favorecia a velocidade.
- SX90: O modelo base profissional, com chaminés retas (straight tone holes). Oferece um som um pouco mais focado e “limpo”.
- SX90R: O modelo “R” introduziu os controversos e famosos Soldered Tone Rings (anéis de tom soldados) [6].
3.2 A Polêmica dos Anéis Soldados (Soldered Tone Rings)
Ao contrário dos saxofones vintage americanos (como Conn 10M ou Martin Committee) onde o metal do corpo era fisicamente estirado e enrolado para criar a borda da chaminé, a Keilwerth adotou uma abordagem híbrida no SX90R.
- O Processo: A chaminé é estirada (drawn) do corpo. Em seguida, um anel de metal separado é soldado no topo dessa chaminé.
- O Objetivo: A Keilwerth afirma que isso aumenta a superfície de contato da sapatilha, melhorando a vedação e prolongando a vida útil do couro (evitando cortes). Acusticamente, argumenta-se que a massa extra no ponto de emissão sonora adiciona “core” (núcleo) e projeção [7].
- A Controvérsia Técnica: Luthiers e técnicos em fóruns especializados (como Sax on the Web e Woodwind Forum) levantaram questões sobre a precisão deste método. Se o anel não for soldado perfeitamente plano, ou se houver distorção térmica durante a soldagem, o nivelamento é extremamente difícil. Diferente de uma chaminé reta que pode ser limada até ficar plana, um anel soldado tem uma superfície curva que não aceita bem o lixamento excessivo. Isso levou a relatos de vazamentos crônicos em alguns lotes de produção, especialmente nos anos 2000 [8].
- Solução: A Keilwerth refinou seus processos ao longo dos anos, e a introdução de sapatilhas de alta qualidade (Pisoni Pro) com assentamento preciso mitigou grande parte desses problemas nos modelos pós-2010.
3.3 A Série Shadow e a Metalurgia Exótica
No topo da cadeia alimentar da Keilwerth está o modelo SX90R Shadow. Este instrumento não é apenas uma variação estética; é uma proposta acústica diferente.
- Níquel Prata (Nickel Silver/Alpaca): Diferente da maioria dos saxofones feitos de latão (uma liga de cobre e zinco), o corpo do Shadow é fabricado em Níquel Prata (uma liga de cobre, níquel e zinco). O níquel prata é mais rígido e denso que o latão [9].
- Impacto Sonoro: A rigidez da alpaca resulta em uma ressonância diferente. O instrumento responde mais rápido aos transientes (ataques de notas). Enquanto o latão tende a “amortecer” certas frequências altas, a alpaca as projeta com vigor. Combinado com o design de tubo largo (que favorece graves), o Shadow cria um som paradoxal: possui graves profundos e cavernosos, mas agudos cristalinos e cortantes. É descrito como tendo um “EQ natural em forma de V” (graves e agudos acentuados).
- Acabamento: O banho de níquel preto sobre a alpaca, com chaves prateadas e gravação à mão, cria uma estética gótica/moderna que se tornou ícone no Smooth Jazz e no R&B.
3.4 O Breve Experimento MKX
Lançada em 2013 e descontinuada silenciosamente alguns anos depois, a série MKX (Markneukirchen X) tentou unir o “melhor dos dois mundos”.
- Conceito: Usar o tudel e a campana do SX90R (garantindo o som Keilwerth), mas com um corpo de geometria ligeiramente mais estreita, inspirada nos saxofones franceses clássicos (Selmer Mark VI) [10].
- O Resultado: Um instrumento com som mais focado que o SX90R, mas com mais “corpo” que um Selmer. O MKX visava músicos que achavam a ergonomia do SX90R muito “espalhada” ou o som muito “aberto”. Apesar de ser um instrumento profissional de altíssimo nível, o mercado pareceu preferir a identidade “pura” e extrema do SX90R, levando à descontinuação do MKX.
4: Anatomia Técnica – O Que Define o “Som Keilwerth”?
Para o leitor do LAB SAXPRO, é essencial entender que o som da Keilwerth não é fruto do acaso, mas de escolhas deliberadas de engenharia física e acústica.
4.1 A Geometria “Wide Bore” (Tubo Largo)
A característica mais definidora de um Keilwerth é o diâmetro do seu tubo acústico, especialmente na curva inferior (bow) e na transição para a campana.
- Física do Tubo: Comparado a um Selmer Series III ou Yamaha Custom Z, o cone do Keilwerth se expande mais rapidamente. Um tubo mais largo reduz a impedância acústica geral do instrumento.
- Consequência para o Músico: O ar flui com menos resistência. Isso permite que o músico use uma coluna de ar maciça sem que o instrumento “sature” ou “feche”. O som resultante é descrito como “Spread” (espalhado/largo). É uma parede de som que preenche o ambiente de forma omnidirecional, ideal para tocar acusticamente ou para criar uma base sólida em uma seção de metais [11].
- O “Rumble” dos Graves: Devido a essa geometria, as notas graves (Bb, B, C, C#) de um Keilwerth são famosas por serem as mais fáceis de emitir entre todas as marcas modernas. Elas não apenas saem com facilidade, mas possuem um “ronco” ou textura sub-harmônica que é a assinatura da marca.
4.2 Mecanismo de Elevação de G# (G# Lifter)
Uma das falhas mecânicas mais irritantes do saxofone é a chave de Sol Sustenido (G#) grudando. Devido à gravidade e ao acúmulo de saliva, a sapatilha tende a colar na chaminé. A Keilwerth incorporou um mecanismo auxiliar inteligente. Quando a tecla de G# é pressionada, não apenas a mola atua, mas há uma alavanca mecânica que força a sapatilha a se levantar. Isso praticamente elimina o problema de “sticky G#” em performances.
4.3 Chaves de Palma Ajustáveis (Adjustable Palm Keys)
A ergonomia das mãos varia drasticamente entre os músicos. As chaves de palma da mão esquerda (D, Eb, F agudos) são fixas na maioria dos saxofones.
- Inovação: A Keilwerth introduziu chaves de palma ajustáveis em altura e ângulo. O músico pode usar uma chave Allen para elevar ou abaixar as teclas, personalizando o “fit” para mãos grandes (comum entre saxofonistas homens ocidentais) ou mãos menores. Isso reduz a tensão muscular e facilita a execução técnica rápida no registro agudo [11].
5: O Labirinto dos Modelos Estudantis e Intermediários
Para o mercado brasileiro, onde o poder de compra muitas vezes restringe o acesso aos modelos profissionais SX90R, os modelos intermediários e estudantis da Keilwerth aparecem como opções tentadoras. No entanto, esta é uma área minada por mudanças de fabricação e terceirização.
5.1 A Saga Geográfica do ST90 (Student)
O modelo ST90 passou por uma metamorfose geográfica que afeta diretamente seu valor e qualidade. Ele não é um único instrumento, mas quatro gerações distintas [12]:
| Série | Origem de Fabricação | Características | Veredito de Compra |
|---|---|---|---|
| ST90 Série I | Alemanha (Nauheim) | Tubo largo real, construção robusta, “Tank”. | Excelente. Um Keilwerth real a preço de estudante. |
| ST90 Série II | Alemanha (Montagem final) | Ainda mantém o DNA alemão. | Muito Bom. Alta durabilidade. |
| ST90 Série III | Taiwan (Montagem) | Peças alemãs/taiwanesas, montagem em Taiwan. | Bom. Começa a transição para um design mais genérico. |
| ST90 Série IV | Taiwan (KHS/Jupiter) | Design genérico taiwanês. É basicamente um Jupiter remarcado. | Regular. Instrumento honesto, mas sem a “alma” Keilwerth. |
Insight de Mercado: No Brasil, vendedores muitas vezes anunciam qualquer ST90 como “Alemão”. É vital verificar a gravação próxima ao número de série. Se disser “Made in Germany”, vale um prêmio de 30-50% sobre o valor da versão “ROC” (Republic of China – Taiwan).
5.2 EX90 (Intermediário)
O EX90 foi posicionado entre o estudante e o profissional.
- Séries I e II: Fabricados na Alemanha. São essencialmente corpos de SX90 com chaves e acabamento simplificados. Uma excelente opção “sleeper” para quem quer o som profissional sem pagar pelos anéis soldados ou gravações luxuosas.
- Série III: Montagem transferida para a Amati na República Checa, usando peças alemãs. A qualidade de montagem e o ajuste das chaves podem ser inconsistentes nesta fase [12].
6: Artistas e Identidade Sonora – O Legado nos Palcos
A validação final de qualquer instrumento ocorre nas mãos dos mestres. A Keilwerth cultivou um nicho de artistas que não buscavam a neutralidade, mas sim uma voz com personalidade forte e texturizada.
6.1 Grover Washington Jr. – O Embaixador do Som Smooth
Grover Washington Jr. não apenas tocou Keilwerth; ele definiu a sonoridade do Smooth Jazz e do Soul-Jazz com um. Seu som, caracterizado por uma doçura nos agudos e um corpo sólido nos graves, era o casamento perfeito com a Keilwerth [13].
- O Setup de Grover: Ele utilizava um SX90R Tenor (Black Nickel) e um H. Couf Superba I (stencil Keilwerth) no soprano e alto.
- A Boquilha e Palheta: Grover usava um setup de resistência hercúlea: boquilhas Berg Larsen de ebonite (hard rubber) com abertura considerável, combinadas com palhetas Rico Royal número 5! [14].
- Análise: Tocar com uma palheta #5 exige uma pressão de ar e suporte diafragmático imensos. Apenas um saxofone de tubo largo (“free blowing”) como o Keilwerth permitiria que esse setup funcionasse sem sufocar o som. O resultado era uma estabilidade de afinação inabalável e um timbre que cortava qualquer mixagem eletrônica dos anos 70/80.
6.2 Ernie Watts – A Potência Dinâmica
Ernie Watts, conhecido por sua técnica virtuosa e energia inesgotável, é outro expoente da marca. Ele utiliza o modelo SX90R Black Gold ou Shadow.
- O Setup de Ernie: Boquilha Otto Link de Metal com aberturas extremas (como #13 ou 10*), palhetas sintéticas ou Rico Jazz Select [15].
- Análise: Novamente, vemos o padrão de “grande abertura + tubo largo”. O Keilwerth permite que Ernie explore dinâmicas que vão do sussurro ao grito primal sem que o instrumento mude sua cor tonal ou afinação.
6.3 Kirk Whalum – A Textura da Voz Humana
Kirk Whalum busca no saxofone uma emulação da voz gospel. Ele utiliza o SX90R para obter aquele som “husky” (rouco/texturizado) cheio de subtons.
- Setup: Boquilha Vandoren V16 ou modelos signature “Kirk Whalum” (feitas por Gary Sugal), em um SX90R. A riqueza de harmônicos inferiores do Keilwerth é fundamental para criar essa “sujeira” estética controlada que Kirk domina [16].
7: Análise de Mercado e Contexto Brasileiro (2025)
A situação da Julius Keilwerth no mercado brasileiro atual é um reflexo das mudanças corporativas globais da marca.
7.1 A Era Buffet Crampon e a Produção em Markneukirchen
Em 2010, após um período de turbulência financeira e falência técnica, a divisão de instrumentos de sopro da Keilwerth (junto com a Schreiber) foi adquirida pelo Buffet Crampon Group.
- Impacto na Produção: A produção foi consolidada em Markneukirchen, Alemanha [17]. A Buffet Crampon investiu na modernização do maquinário e no controle de qualidade, resolvendo muitos dos problemas de inconsistência dos anos 2000.
- Posicionamento: A Buffet manteve a Keilwerth como sua marca “Premium Jazz”, enquanto a própria marca Buffet foca em clarinetes e saxofones clássicos (como o Senzo).
7.2 Disponibilidade e Preço no Brasil
No Brasil, a representação oficial segue os canais da Buffet Crampon, mas a presença física em lojas é escassa. O músico brasileiro interessado em um SX90R novo geralmente precisa recorrer à importação direta ou a lojas especializadas que trazem sob encomenda.
- Custo: Um SX90R Shadow novo é um investimento de luxo, com preços que podem variar entre R$ 35.000 e R$ 50.000 dependendo do câmbio e impostos [18].
- Oportunidade no Usado: O mercado de usados é o terreno fértil. Saxofones “H. Couf Superba I” ou “Keilwerth New King” podem aparecer por valores entre R$ 8.000 e R$ 15.000. É essencial que o comprador verifique o estado dos anéis soldados (no caso de SX90R usados) e a integridade do metal.
7.3 Manutenção nos Trópicos
Para o técnico brasileiro: devido ao tamanho maior dos orifícios (large bore), as sapatilhas têm área de superfície maior. Em climas úmidos como o do Brasil, elas tendem a absorver mais umidade. O uso de sapatilhas tratadas hidrofobicamente é recomendado. Ao receber um SX90R para sapatilhamento, verifique a planicidade dos anéis com uma régua de luz. Se houver empenamento, o ajuste deve ser feito na chave, não lixando o anel (que é oco ou fino na junção).
Conclusão: O Legado do Som Alemão
A Julius Keilwerth sobreviveu a guerras mundiais, exílios forçados, mudanças de regime político e falências corporativas. Sua persistência não é apenas um feito comercial, mas cultural. Ela manteve viva uma filosofia de som que se recusa a ser homogeneizada.
Para o saxofonista brasileiro, acostumado à ubiquidade do padrão Yamaha ou às cópias Selmer, tocar um Keilwerth pela primeira vez é muitas vezes uma experiência reveladora. A resistência do ar é diferente; a vibração sob os dedos é mais intensa; o som não sai apenas pela frente, mas envolve o músico. Seja em um antigo New King resgatado e restaurado, ou em um SX90R Shadow de última geração, a Keilwerth oferece uma ferramenta de expressão única: um instrumento que permite ao músico não apenas tocar notas, mas esculpir o som com uma densidade e uma presença que poucos outros fabricantes conseguem replicar.
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Referências e Leitura Complementar
- Stephen Howard Woodwind – Review Keilwerth SX90R Tenor
- Wikipedia: Julius Keilwerth Company History
- Keilwerth History by Marge
- SaxPics: Keilwerth New King & Toneking Models
- Keilwerth Stencils & Models List
- Análise Técnica SX90R – Tone Hole Rings
- Fórum Saxophone.org: Debate sobre Tone Rings
- CafeSaxophone: SX90 Tone Holes Warping Issues
- Julius Keilwerth Official: SX90R Shadow Specs
- Catálogo Oficial Keilwerth: MKX vs SX90R
- Review YouTube: Keilwerth SX90R Tone & Ergonomics
- Wikipedia: Keilwerth ST90 Series History
- GetASax: Grover Washington Jr & Keilwerth
- Famous Sax Players Setups: Grover Washington Jr.
- Ernie Watts Official Equipment Page
- Kirk Whalum Mouthpiece & Setup Info
- Buffet Crampon Acquires Keilwerth (2010 Announcement)
- Cotação de Mercado: Keilwerth SX90R Shadow


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